Ritual

Os ritos dos Khlystis perpetuaram-se em formas degradadas, grosseiras e populares, resíduos de cerimônias orgíacas précristãs que perderam o seu fundo original e essencial, para, paradoxalmente, absorver alguns motivos da nova fé. A premissa dogmática da seita é que o Homem é potencialmente Deus. Ele pode tomar consciência deste fato e, assim, sê-lo de fato, realizando, trata-se de um homem, natureza de Cristo (daí o nome da seita), se é mulher a da Virgem, quando através do rito secreto ele ou ela provocam a descida transfigurante do Espírito Santo sobre eles próprios. Este rito secreto celebra-se à meia-noite. Os participantes, homens e jovens mulheres, endossam sobre a nudez mais completa (nudez ritual) somente uma veste branca. Depois da fórmula invocatória inicia-se uma dança de roda, formando os homens um círculo ao centro que se move rapidamente no sentido da marcha do sol, e as mulheres um círculo exterior ao primeiro, na direção oposta, anti-solar (referência ritual à polaridade cósmica refletida pelos sexos). O movimento torna-se cada vez mais vertiginoso e selvagem até que alguns membros se separam dos círculos pondo-se a dançar isoladamente, como os antigos vertiginatores e os derviches árabes, com uma rapidez tal que por vezes (diz-se) não se lhes distingue o rosto, caindo e levantando-se (dança técnica do êxtase). O exemplo atua de modo contagioso e pandêmico. Como fator ulterior de exaltação, utiliza-se a flagelação recíproca da massa dos assistentes, homens e mulheres (a dor como fator erótico-extático). No acume desta exaltação começa a pressentir-se a transformação interior, a descida iminente, que se invocou, do Espírito Santo. Neste momento os homens e as mulheres desnudam-se arrancando do corpo as vestes rituais e copulam na maior promiscuidade; a experiência do sexo e o traumatismo da união sexual fazem este rito atingir a sua intensidade-limite.
A hibridez destes ritos é posta em evidência pelo fato de ter por centro uma jovem, escolhida de cada vez, na qual se vê a «personificação da divindade, e ao mesmo tempo o símbolo da força geradora»; ela é adorada quer como Mãe Terra, quer como Virgem Santa dos cristãos. Ela oferece-se completamente nua no fim deste ritual secreto, para distribuir como um sacramento, bagos de uvas secas. Fácil será reconhecer através deste pormenor da cerimônia secreta dos Khlystis, um prolongamento dos ritos orgíacos antigos, que se celebravam sob o signo dos mistérios da Grande Deusa ctónica, a «Deusa nua.»
É interessante notar que na seita a que nos referimos o sexo é rigorosamente limitado a este uso ritual e extático; com efeito, a seita professa um ascetismo rígido em qualquer outro aspecto, condenando todo o amor físico, a ponto de estigmatizar o próprio matrimônio. Apresenta nesse ponto uma nítida analogia com uma outra seita eslava, a dos Skoptzis, em que o ascetismo chega ao ponto de prescrever a castração dos homens e das mulheres, conservando, porém, o fundo original, pois nesses ritos figura igualmente uma jovem nua à volta da qual tudo se desenrola. Trata-se provavelmente de uma outra forma dos mistérios de Grande Deusa, a Cibele frigia, culto que se associava frequentemente a mutilações semelhantes praticadas no frenesim extático.

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